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A verdade sobre a forma como pensamos

Todos nós somos vítimas de erros cognitivos, afirma o prêmio Nobel Daniel Kahneman. Saber disso, contudo, pode nos ajudar a evitá-los.

Entrevista com Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2002 e autor do livro: Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.

Rápido e Devagar (Farrar, Straus and Giroux, 2011) é muitas coisas: fascinante, de leitura compulsiva, fácil de entender e muitas vezes divertido. Mas ele não é bajulador.

"Ele tampouco busca agradar a todos," diz o autor, Daniel Kahneman, PhD, prêmio Nobel e professor emérito de Psicologia e Assuntos Públicos na Universidade de Princeton. "Ele não foi escrito especificamente como 'um livro para tornar você uma pessoa mais inteligente em seis etapas simples. ' Estudo este material há 45 anos, e não acho que tenha ficado muito mais inteligente.".

No entanto, as pessoas parecem estar pensando muito a respeito deste livro. Ele consta da lista de "melhor livro do ano" da Amazon, do The New York Times Book Review, The Globe and Mail, The Economist e do The Wall Street Journal. E mesmo que os leitores não tenham se tornado mais inteligentes, ficaram mais bem informados sobre a forma como seu cérebro funciona.

Somos muito influenciados por coisas completamente automáticas sobre as quais não temos nenhum controle.


Rápido e Devagar explica que as pessoas usam dois métodos de pensamento - Sistema 1 e Sistema 2. O Sistema 1 é rápido, automático e direcionado pelo contexto. Aceita como verdade o que lhe parece coerente com sua visão de mundo no momento. Se você está preocupado com o seu desempenho no trabalho e seu chefe passa aborrecido, por exemplo, o Sistema 1 vai lhe dizer que o seu patrão está zangado com você.

O Sistema 2 é mais lento, deliberativo e analítico. O Sistema 2 diria que seu chefe leva uma hora para vir ao trabalho passando por vias congestionadas, e que seu trajeto pode ter sido horrível naquela manhã. O problema com o Sistema 2 é que ele é preguiçoso, não gosta de entrar em ação. Quando o faz, ele, literalmente, tem que sustentar muita energia - pensar é uma atividade que queima glicose, envolve o corpo inteiro e é por isso que você pode se sentir mais cansado depois de um dia em frente ao computador do que depois de um dia de caminhada na montanhaHá maneiras de contornar os sistemas, no entanto, que podem nos ajudar a evitar erros e ser um pouco menos ingênuos e um pouco menos preguiçosos. Conforme o Dr. Kahneman expõe na entrevista a seguir, compreender como você pensa pode não torná-lo mais inteligente ou melhorar a sua autoestima, mas certamente vai ajudá-lo a usar melhor os seus Sistemas.

GMJ: Depois de ler o seu livro, eu deveria saber que preciso evitar o Sistema 1, mas vou fazê-lo mesmo assim, não é?

Dr. Kahneman: Você vai fazê-lo durante a maior parte do tempo, porque não tem outra opção. Não pode questionar as evidências de tudo. O Sistema 1 acontece automaticamente. Como um eleitor, você pode dizer: "Eu realmente quero votar a respeito dos assuntos" ou "Quero votar estrategicamente", mas isto requer muito tempo e esforço.

As pessoas fazem julgamentos a partir de estímulos a sua volta , especialmente aquelas que dependem da televisão e não leem e não refletem muito. Na verdade, as pessoas que agem pelo Sistema 1 são muito influenciadas pelas aparências - julgam a competência apenas a partir de fotografias. Somos muito influenciados por coisas completamente automáticas sobre as quais não temos controle, e não sabemos que fazemos isso. Ninguém diria, "Estou votando nesse cara porque ele tem o queixo mais anguloso", mas na verdade, isso é em parte o que acontece.

GMJ: Mas isso é bobagem. Por que faríamos isso?

Dr. Kahneman: É chamado de "julgamento por representatividade", e fazemos muito. Isso acontece quando você faz um julgamento do que vai acontecer por extrapolação do que você vê da forma mais direta possível, e você faz isso escolhendo o resultado que lhe é mais familiar. Então, se um político parece presidencial, e existe tal coisa como 'parecer presidencial', o Sistema 1 diz: "Esse cara seria um bom presidente". Quando as pessoas são influenciadas pela forma como o candidato presidencial aparenta, elas geralmente estão usando a representatividade. Por exemplo, a forma de andar do presidente Reagan era muito imponente. Parecia uma caminhada decisiva, e isso causou uma impressão imediata e muito forte.

Nós também inferimos a respeito da qualidade da tomada de decisão a partir da velocidade com a qual as pessoas tomam suas decisões. Qualquer pessoa que tome decisões rapidamente tem uma vantagem. Acho que em sua maioria a população apreciava mais o estilo de tomada de decisão do presidente Bush do que estilo de tomada de decisão do presidente Obama. O estilo de Bush era mais intuitivo e mais rápido, enquanto Obama é muito reflexivo e leva um tempo maior. Completamente independente de qualquer outra coisa, as pessoas fazem inferências sobre a determinação de um indivíduo com base na velocidade de suas decisões. Eu repito, isso é o Sistema 1, e não há muito que se possa fazer a respeito.

GMJ: Então nós fazemos inferências positivas sobre as pessoas que parecem tomar decisões rápidas. Mas eu também notei que cumprimentamos a nós mesmos quando tomamos nossas próprias decisões de maneira rápida, as quais parecem sempre tão perspicazes e sábias.

Dr. Kahneman: Impressões fortes podem nos fazer sentir assim, é verdade. Essas impressões, esses julgamentos, geralmente vêm com um nível bastante elevado de confiança. Mas eles podem estar errados. É um equívoco as pessoas terem confiança em um julgamento porque contribuiu para uma boa história, quando na verdade a confiança deve ser baseada na qualidade e na quantidade de evidências.

Em vez disso, nos sentimos confiantes, e isso é muito diferente de um juízo de probabilidade de que estejamos certos. Esse tipo de confiança subjetiva vem da facilidade cognitiva, ou a facilidade com que uma ideia ou uma resposta me vem à mente. Às vezes, a resposta mais fácil não é a correta. Às vezes, a impressão está equivocada.

Se as pessoas estão em declínio, aparentam ineptas. Se estão tendo sucesso, aparentam fortes, apropriadas e competentes.


GMJ: Trata-se da "hipótese da arrogância" que você menciona no livro?

Dr. Kahneman: Essa hipótese foi proposta por um famoso professor de finanças para explicar por que tantas fusões e aquisições entre as grandes empresas não tem êxito. A ideia é que você analisa outra empresa, e ela aparenta estar afundando. Então você pensa: "Ah, esses gestores são ineptos - Eu poderia fazer melhor." Isso o motiva a comprar a empresa, geralmente a um preço inflacionado, porque acha que pode fazer com que a empresa desempenhe muito melhor do que naquele momento.

Essa é a hipótese de arrogância. Muitas vezes, no entanto, a administração aparenta estar afundando não porque sejam ineptos, mas porque enfrentam um problema que não conseguem resolver. Nesse caso, você vai enfrentar o mesmo problema quando adquirir a empresa, e não fará melhor.

Se as pessoas estão em declínio, aparentam ineptas. Se estão tendo sucesso, aparentam fortes e apropriadas e competentes. Esse é o "efeito halo". Sua primeira impressão de uma coisa define suas crenças posteriores. Se a empresa aparenta ser inepta para você, você pressupõe que tudo o que eles fazem é inepto. Daí você não quer mudar de ideia por causa da confiança que sente.

GMJ: Então, o que uma pessoa pode fazer para evitar arrogância?

Dr. Kahneman: Uma sugestão seria a de assumir que sempre que você vir uma empresa insolvente vai considerar que o seu julgamento a respeito de sua gestão é provavelmente muito duro. E sempre que uma empresa estiver desempenhando muito bem, você deve inferir que provavelmente você está superestimando a contribuição de seus gestores, porque é muito provável que se uma empresa está indo bem, ela teve sorte. Essa teoria é válida para as empresas e para as pessoas - mesmo golfistas. Se você sabe que Tiger Woods está indo bem, então você pode inferir que ele é talentoso. Mas, por isso mesmo, também é possível inferir que ele foi favorecido pela sorte. No futuro, o talento permanecerá, mas a sorte não.

GMJ: Há pessoas que negam que a sorte exista. Elas dizem que esperteza e um bom planejamento são tudo o que precisamos.

Dr. Kahneman: É assim que somos vítimas da falácia do planejamento. Na falácia do planejamento você faz um planejamento geralmente no melhor cenário possível. Então você pressupõe que o resultado vai seguir o seu planejamento, mesmo quando já deveria saber que não é bem assim. Isto é o que acontece com as reformas de cozinha. Você tem um planejamento, e tem um orçamento, e tem uma ideia. Você simplesmente não antecipa os problemas, o que você deveria fazer, porque as estatísticas mostram que você provavelmente vai acabar por gastar o dobro do dinheiro e do tempo que orçou. Mas as pessoas não antecipam os acidentes, e não antecipam as suas próprias mudanças. Pensamos que "o que vemos é tudo que existe.".

GMJ: "O que vemos é tudo o que existe" é uma falácia comum à qual você cunhou um sigla em seu livro: WYSIATI (das iniciais em inglês: "what you see is all there is").

Dr. Kahneman: Isso é apenas a forma como o Sistema 1 funciona. Às vezes temos fortes impressões sobre problemas complicados, e não entramos em contato com aquilo que não conhecemos. O Sistema 1 cria a melhor história possível com a informação disponível. Quando há pouca informação ou se ela é de má qualidade, geramos a melhor história que conseguimos em todo caso, e é a coerência da história que determina a nossa confiança. WYSIATI significa que você não permitirá a entrada daquilo que não conhece. O Sistema 1 realmente não é projetado para permitir a entrada daquilo que você não conhece.

GMJ: Você pode me dar um exemplo de como WYSIATI funciona na prática?

Dr. Kahneman: Pense em um político, por exemplo. Se eu te disser que ele é inteligente e firme, você já começa a pensar que ele é bom líder. Você não leva em consideração o fato de que sabe muito pouco e que eu poderia lhe dizer em seguida que ele é cruel e corrupto. Você forma uma impressão bastante definida com base nos primeiros dois atributos.

Uma máquina de julgamento ideal avaliaria a qualidade da evidência e verificaria o que poderia ser inferido a partir da evidência. Mas nós não somos máquinas de julgamento ideais. Fazemos julgamentos com base em muito pouca informação, com base no que vemos, e ficamos muito confiantes com isso. Essa é a maneira como o Sistema 1 foi projetado. Ele foi projetado para evitar a paralisia. Você não pode esperar para obter informações. A evolução não nos projetou para esperar pelas informações, projetou-nos para tomar decisões.

Não somos máquinas ideais de julgamento. Fazemos julgamentos com base em muito pouca informação.


GMJ: Rapidamente e antes que um leão nos coma.

Dr. Kahneman: Sim, rapidamente.

GMJ: Mas não há mais muitos leões desejando nos comer. Então, quando estamos tomando decisões, será que não nos ocorre que talvez nos faltem informações?

Dr. Kahneman: Não, geralmente não. Se eu te disser que vou te dar dois adjetivos sobre um líder nacional, e eu digo que esses adjetivos são "inteligente" e "firme", parece ser informação suficiente. O Sistema 1 pode fazer um julgamento com base nisso. Mas, na verdade, há todo um mundo de outras características relevantes para a liderança, mas você não pensou a respeito daquilo que não conhecia. Você acabou de fazer um julgamento com base naquilo que sabia.

GMJ: Mas uma vez que formei um julgamento, eu poderia aceitar mais informações e mudar de ideia? Ou será que eu defenderia o meu julgamento errôneo?

Dr. Kahneman: É preciso muito esforço para mudar de opinião. Somos muito influenciados por nossa primeira impressão. Julgamentos intuitivos chegam com muita confiança. Lembrando-se a si mesmo que poderia estar enganado não ajuda, porque você precisa de confiança para agir. Existe a noção de que enfraquecer a confiança é algo destrutivo porque deixa as pessoas paralisadas.

GMJ: Mas se isso te impede de cometer um erro. . .

Dr. Kahneman: Sim. Em muitos casos, a paralisia seria melhor do que a ação.

GMJ: Então, no momento em que você pensar: "Eu sou um gênio!" Provavelmente terá que repensar certo?

Dr. Kahneman: Não apenas o pensamento de que você é um gênio. Quando tem uma forte primeira impressão, parar para pensar pode ser importante. Às vezes, você deve procurar uma maneira diferente de avaliar e julgar as provas - como pedir opiniões objetivas às pessoas ou muitas outras coisas que você não pode fazer a respeito de cada pergunta que vem à mente. Na maioria das vezes, porém, não há nada que possamos fazer, temos que agir baseado em nossas impressões. Não podemos parar e deliberar durante todo o dia.É por isso que eu não iria escrever um livro de autoajuda, porque eu não acho que podemos usar o Sistema 2 o tempo todo. O Sistema 2 é preguiçoso demais - ele faz o mínimo possível. Existe realmente uma "lei do mínimo esforço" que opera, portanto, tentamos resolver usando a nossa intuição. Para algumas pessoas, pensar é muito doloroso. Para qualquer um, demorar-se é doloroso, porque a fluência e a facilidade cognitiva são muito presentes. Demorar-se significa impor sobre si mesmo não somente trabalho adicional, mas também alguns aborrecimentos.

GMJ: Mas pode ser feito.

Dr. Kahneman: Claro. Mas não rapidamente ou facilmente.

Não somos máquinas ideais de julgamento. Fazemos julgamentos com base em muito pouca informação.

-- Entrevistado por Jennifer Robison

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